A autoaceitação como estratégia na luta contra a pressão estética

em 14 de janeiro de 2019

Aos 7 anos, me lembro de chorar em frente ao espelho por não ser a menina magrinha que todos da sala gostavam e eram amigos. Aos 12, não só me convenceram como também, pasmem, depilaram as minhas pernas pela primeira vez porque "era muito feio uma menina ter as pernas peludas assim". Aos 13, vivia um regime de auto-ódio por não encontrar uma calça ou short jeans que entrasse no meu corpo e não me incomodasse como todos os outros. Cheguei ao ponto de comprar duas ou três peças do mesmo modelo (quando tinha) de uma roupa porque não sabia quando seria meu próximo dia de sorte, afinal de contas, não se encontra roupas no tamanho 44 adulto na sessão de adolescentes e, se você for na sessão adulta, elas não tem o caimento do corpo de uma criança.

As coisas começaram a piorar quando, ainda aos 13 anos, iniciei a minha procura e consumo assíduo por conteúdos que ensinassem a me vestir bem, a me comportar entre amigos, a atrair atenção dos garotos e, como se esses tópicos já não fossem ruins o bastante, ainda tinham as supostas dietas milagrosas que iriam me deixar com o corpo “perfeito” - em aspas mesmo. Vale mencionar que nada disso funcionou. É fato que nessa idade a gente realmente não tem uma noção bem definida do que estamos fazendo e muito menos sabemos e temos a coragem necessária (ou o acolhimento) para assumir nossa essência e sermos nós mesmos - e às vezes nem mesmo depois dos 40 segundo a minha mãe.

Esse tipo de coisa só acontece porque desde bem pequenas nós somos cercadas e sufocadas diariamente por imposições estéticas e comportamentais que nos podam o tempo inteiro. São comentários absurdos que envolvem nossos pelos, a roupa que vestimos, a maquiagem que usamos (ou não usamos), o nosso peso, a maneira que nos portamos e etc. Porém, o pior de tudo mesmo, é que muitas vezes eles começam dentro de nossas próprias casas, um espaço que deveria ser seguro e de acolhimento para uma criança crescer e se apresentar ao mundo da forma que ela se sentir melhor.
Somos obrigadas a conviver o tempo inteiro com padrões que ditam que para sermos felizes temos que ser bonitas e que para sermos bonitas precisamos ser perfeitas. Ilustração por Agridulce.
Felizmente, nos dias atuais isso vem mudando gradativamente e podemos afirmar que, talvez, meninas como a minha irmã de 7 anos conseguirão viver sua adolescência em uma sociedade um pouco menos tóxica do que a que eu e minha mãe crescemos. E, apesar disso ter se tornado cada vez mais palpável, ainda é fato que a indústria e a mídia são as principais perpetuadoras da pressão estética da atualidade e que a forma como consumimos esses conteúdos influenciam nosso comportamento nos mais diversos grupos sociais, portanto, esse tipo de sistematização de conduta faz com que a nossa principal necessidade seja lutar contra a forma que a estrutura desses meios é pautada.

Em decorrência disso existe uma grande necessidade de que fortaleçamos nosso emocional e a autoaceitação para sermos capazes de construir uma sociedade mais acolhedora para as nossas crianças e, principalmente, termos forças para continuar lutando contra os padrões vigentes em nosso momento atual. Um exemplo claro de que essa transformação pode sim ser traçada é o movimento Body Positive¹ que luta também contra a gordofobia enraizada em nossos costumes através do empoderamento do corpo gordo. Com ele é possível notar que a "mudança" (cabe-se pôr em aspas, pois pessoas gordas sempre existiram) da demanda é capaz de transformar a estrutura que está em vigor - mesmo que essa transformação seja lenta e que, muitas vezes, no inicio ainda seja problemática como em alguns casos de marcas plus size em que ainda faltam roupas para todos os tamanhos de corpos. Ou seja, a partir do momento em que uma série de pessoas decidem se aceitar da forma que são e não estão dispostas a alterarem os seus corpos para entrarem em concordância com os padrões vigentes, algumas mudanças começam a acontecer.

Diante dessas circunstâncias, fica cada vez mais evidente a importância do empoderamento² e, mais ainda, da autoaceitação como uma das estratégias na luta contra a pressão estética. E como sabemos que ninguém vai acordar no dia seguinte amando a imagem que vê refletida no espelho, existe sempre uma necessidade de estar elaborando pequenas práticas que exercitem o nosso amor próprio. No entanto, vale ressaltar que esse é um processo lento e que não existe muito bem o topo definido de uma escala, a lógica é simples: alguns dias são melhores que outros.
Desde os meus 14 anos quando iniciei essa jornada posso dizer que, hoje, aos 18 anos, me sinto muito melhor do que já me senti antes. A minha consciência é outra e sei que tenho total poder de escolha sobre o que fazer ou não sobre o meu corpo, porém é óbvio que tenho recaídas, até porque a autossabotagem mora a uma porta de distância da nossa autoconfiança.

O importante é seguirmos sempre tentando, pois é através da autoaceitação que será possível ensinar aos nossos filhos, para que esses ensinem aos nossos netos e assim por diante que ninguém precisa seguir padrões de beleza para poder ser feliz. Afinal de contas, se o seu corpo é totalmente seu, por que seguir regras estipuladas por outras pessoas?

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Para saber mais:
¹ Vídeo da Alexandrismos sobre Body Positive: O que é Body Positive?
² Texto da Revista Capitolina sobre empoderamento: Ganhando poder sobre nossos corpos.

Dois mil e dezenove

em 2 de janeiro de 2019

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Eu nunca fui muito fã do cheiro da terra molhada, no entanto, sempre gostei do que vinha depois, pois a chuva sempre teve o poder de me acalmar. Observá-la e ouvir o seu som me trás uma sensação de paz que não deve haver igual. Por isso, são os períodos em que o céu parece chorar que me fazem ter esperança na vida, com eles tomo consciência de que, assim como o cheiro inicial de terra molhada, os momentos ruins virão, mas que os de calmaria estarão a me esperar logo após, tal como a chuva contínua que me trás serenidade.

Ontem foi o primeiro dia do ano e, pouco antes do fim da queima de fogos que anunciava a chegada de 2019, algumas gotas começaram a cair no meu rosto. Foi quase como um sinal divino de que tudo iria ficar bem, como se o ano que ficou para trás tivesse sido um grande limbo de terra molhada. E de fato foi. 
Elegemos o reflexo do ódio generalizado às diferenças. 
Perdemos de tudo um pouco: laços, vidas, direitos.
Sofremos e lutamos de todas as maneiras possíveis e muitos quase foram silenciados.
Mas não vamos desistir.
Ganhamos mais 365 dias para lutar - e não só por nós mesmos.  
Ninguém solta a mão de ninguém.

Para o nosso dois mil e dezenove meus votos de força para continuarmos nos levantando todos os dias e correndo atrás dos nossos sonhos. Estamos juntos nessa.